quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Caminhava



Meu pescoço doía enquanto eu olhava os prédios altos, em sua conspiração silenciosa para caírem sobre mim.

Minha cabeça zonza de fumaça e barulho girava.

Uma bolha no pé incomodava ao andar.

Mas, sobre uma árvore, um pequeno pássaro cantava.

PS - Era o mais belo dia de todos.


quinta-feira, 23 de setembro de 2010

O primeiro dia

Quantas e quantas vezes já ouvi alguém dizer que se deve viver como se fosse o último dia de sua vida? Quantas vezes se ouve falar por aí que ver todas as coisas como se fosse pela última vez faz com que você aproveite as coisas ao máximo?

Perdoem-me os que criaram essa teoria, e também os adeptos a ela.

Mas não posso fazer isso comigo.

Isso porque pensar que hoje é meu último dia me faz concluir que eu já vi e fiz tudo o que deveria ter visto e feito durante essa vida, sobrando espaço apenas para um e outro ajuste que eu estou empurrando há tempos com a barriga.

Prefiro ver a vida como se esse fosse meu primeiro dia aqui nesse mundo.

Experimente fazer isso. Sinta que é a primeira vez que vê as coisas. Olhe para as árvores, para as plantas, para os cachorros de rua, para o céu, para você mesmo no espelho, para o porteiro do seu prédio, para o cobrador do ônibus, para a sua família, para o seu quarto, para a sua namorada, para os seus amigos...

E você sentirá uma vontade tremenda de conhecer tudo.

Uma vontade de chegar até as árvores e lhe sentir a textura, coisa que certamente há muito tempo você não faz...

Uma vontade de falar com o porteiro, por quem você passa todos os dias e nem dá atenção, e perguntar como é a sua vida, se está com fome ou frio, falar sobre sua família, sentir vontade de conhecer seus filhos e sua mulher...

Vontade de escanear o céu e poder gravar na memória cada um dos traços e dos desenhos que as nuvens formam...

Vontade de falar com a pessoa que você ama e sentir todo esse amor como da primeira vez; e falar que a ama como falou da primeira vez; e a beijar como se fosse o primeiro beijo; e descobrir todo dia mais e mais as coisas que ela gosta e que a fazem feliz...

Vontade de olhar para todas as coisas e descobrir o quanto você deseja conhecê-las.

Fique feliz.

Esse é o primeiro dia.

De todos.

A verdade

Senti suas mãos quentes me tapando a visão, olhei para trás e vi teus olhos grandes me olhando e derramando um fluido extremamente brilhante que entrava pelos meus olhos e inundava toda a minha vida...

Olhei para dentro de mim e perguntei-me: "Existe alguém mais feliz e completo e tranquilo e confiante do que eu depois que te encontrei?"

Em verdade, responder "não" a essa pergunta foi a coisa mais sensata que já fiz em toda a minha vida.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Ser de novo

Depois de tanto tempo, a vontade de ser de novo...

A vontade de finalmente erguer a estrutura definitiva depois de tantos desabamentos e demolições e desconstruções e pilhagens e pichações e sujeira na parede...

Dessa vez tudo deve ser pensado.

Meticulosamente.

Os alicerces já estão lá, tão fundo quanto é possível e pensável.

Ou até mais do que isso.

Comecemos a construção, então.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Sobre certas coisas

Um dia as coisas todas convergiram e eu me vi ali, sentado no topo, no pico, sobre a maior montanha do mundo e ao mesmo tempo à beira do maior precipício.

E vi a maravilha que é a vida no vale lá embaixo.

Mas... como descer até lá? Meus pés eram de chumbo, minhas raízes estavam fincadas naquela montanha...

Arranjei cordas, as mais fortes, as mais resistentes, e me amarrei a elas; coloquei roupas especiais contra o frio e também um capacete super-resistente; enchi a mochila com as provisões para a descida; não esqueci do meu cilindro de oxigênio.

E a descida começou.

Um passo, pequeno, tímido, nervoso. Mais outro, um pouquinho mais confiante. Agora, um pequeno salto. Uma pedra rola.

E desaparece no abismo.

Interrompo a descida. Olho para o vale, azul, sereno. Vale a pena descer? O vale parece tão lindo, mas tão longe, longe, longe... e a descida, muito íngreme; e eu, tão despreparado...

Choro. Choro por sentir, no fundo da alma, que o vale é inacessível pra mim. Choro ao concluir que a descida é praticamente impossível; e se possível, é muito demorada, de modo que eu só conseguiria chegar ao vale no fim da vida e das forças, quando não poderia desfrutar mais das maravilhas do vale...

Não via outra saída, decidi voltar. Voltaria a ser o homem do pico da montanha. O último homem solitário. Homem lobo. Homem nuvem. Homem pó.

Enxugo os olhos. Olho o horizonte, sempre longe, longe...

Sinto uma mão no ombro. Olho surpreso. É ela. Nunca a tinha visto fora dos meus sonhos e devaneios,mas sabia que era ela. Tinha uma pele muito rosada, e estava com um vestido prata. E olhava o horizonte. Todo o seu ser exalava um aroma cor do céu, uma luz macia a envolvia inteira.

E olhava o horizonte, insistentemente.

Olhei também, buscando ver o que ela procurava. E ficamos assim, juntos, olhando a linha onde o céu tocava o chão, as árvores, as pessoas e todas as coisas, durante dias e dias...

Numa bela manhã de sol, ela fechou os olhos. Inspirou lentamente, numa inspiração que pareceu durar todos os séculos e conter muitas vidas. Abriu os braços e, como num passo de dança, levitou suavemente sobre o abismo. O sol provocava reflexos em sua roupa, sua pele, seus cabelos, e ela iluminava o mundo todo. Rodopiou diversas vezes, subiu, desceu, deu voltas e voltas na montanha.

E parou na minha frente.

E abriu os olhos.

Naquele momento, ela conheceu todo o meu ser.

"Vem!", sussurrou.

Pobre moça, não sabe que eu não sei voar?!

Mas ela insistiu. "Vem!" Mas eu estava muito amarrado, muito carregado. Ela, então, cortou elegantemente todas as cordas, me tirou a mochila, as roupas contra o frio, o cilindro de oxigênio, o capacete.

E disse: "Vem!"

Oh, moça! Eu tenho os pés de chumbo, não posso voar!

Ela insistiu: "Vem! É só fechar os olhos! Segura a minha mão."

Fechei, peguei na mão dela. O vento bateu no meu rosto, e eu me seti flutuar. Senti que rodopiava e brincava pelos céus ao lado dela. E me senti entre as nuvens e as estrelas.

Foi quando abri os olhos. E vi novamente o abismo.

Senti uma vertigem e comecei a despencar. Ela correu em meu socorro. E me segurou. Mas eu estava apavorado. Berrava deseperadamente: "Eu vou cair! Eu vou cair!"

Ela carregou-me com dificuldade até um lugar seguro. E eu a vi novamente. Estava cheia de marcas de dentes e unhas que, no desespero, usei para me segurar. Seu vestido estava todo rasgado, e ela chorava muito. E eu também chorei, chorei demais. Porque eu a tinha machucado. E aquelas marcas pareciam que iam ficar lá para sempre.

"Oh, menino! Você precisa aprender tantas coisas ainda!", dizia ela, consolando-me.

Foi o dia da promessa. Quando prometi ter mais coragem e segurança para voarmos juntos pelo mundo. E senti tanta força e segurança que os céus pareceram pequenos para os voos que alçaríamos.

E o vale? Não me preocupa mais. Pois hoje sei que basta alçar voo para alcançá-lo, e logo nós dois estaremos lá.

Embora eu saiba que não vamos ficar lá: há muitos vales no mundo a serem explorados.