quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Jango

Jango olha.

Jango vê as árvores, os carros, as janelas, as sobrancelhas e os dentes, tijolos e grades, topos de prédios e tampos de bueiro.

Mas Jango não vê a cera no ouvido de seu companheiro.

Não vê o chiclete grudado no sapato.

Não vê o homem com sangue nos olhos e um punhal cravado no peito por quem passou na última esquina enquanto olhava as árvores e os carros e as janelas e as sobrancelhas e os dentes e os tijolos e as grades e os topos de prédios e os tampos de bueiro.

Pobre jango.

Jango cego.

Jango longe.

Jango vento.

Jango pó.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Renúncia...

-Pois é, agora que você renunciou às trevas, não postou mais no blog... - constatou meu colega um dia desses em plena aula de Entrevista Jornalística.

Isso me fez pensar.

Não tive mais ânimo para postar nada mesmo.

Será que algo mudou?

Será que a confusão que antes existia já não existe mais?

Será que os olhos estrábicos finalmente se alinharam?

Parece que o mundo mudou. A confusão que existia não está mais numa sala cheia de mofo, mobiliada com móveis do século XIX e com teias de aranha por todos os lados.

A confusão mudou-se.

Está num apartamento minúsculo.

Com móveis extravagantes que vieram de muito longe.

Com janelas abertas por onde entra um vento norte muito forte.

Eu não me preocupo mais com a confusão.

Ela está lá, mas não me chama a atenção.

Os olhos estrábicos ainda estão aqui.

Tão desalinhados quanto antes.

Agora não procuro mais alinhá-los para ver melhor: ver assim é mais divertido.

E real.